Skip to main content

Fraudes e venda de bicicletas roubadas são comuns e atrapalham comércio online

Por 11 de setembro de 2021setembro 20th, 2021Bicicleta News, Notícias, Segurança Pública
COMPARTILHE:

Roubos e furtos de bicicletas sempre mobilizam a comunidade de lojistas e clientes. Dessa vez, a vítima foi a Visual Bike em Moema, bairro nobre de São Paulo. Durante o feriado de 07 de setembro, todo o estoque de bicicletas da loja – e algumas de clientes – foi levado.

Foram levados desde modelos mais caros, outros de entrada e até mesmo bicicletas infantis. Todas da linha Trek, marca parceira da loja. Os altos valores envolvidos, que partem dos R$ 4.500 até quase R$ 85 mil, levantam dúvidas sobre como os criminosos irão conseguir repassar os produtos do furto qualificado.

Vendas através de redes sociais e grandes sites de marketplace são uma das alternativas utilizadas por quadrilhas especializadas. A flexibilidade, que facilita o comércio online e ajuda o mercado formal de bicicletas, também é utilizada por verdadeiras empresas especializadas em fraudes e revenda de mercadorias roubadas ou furtadas.

Preços baixos são chamariz para golpe no Mercado Livre

Navegar pelo Mercado Livre em busca de bicicletas tem um componente de aventura: uma boa oferta de bicicleta vendida por um ciclista idôneo está a um clique de distância de produtos sem procedência ou até mesmo roubados.

Motivados pelo furto qualificado na Visual Bike Moema, fomos em busca de modelos da Trek na plataforma. Um olhar atento para certos detalhes ajuda a separar o golpe de uma transação lícita.

Uma estratégia comum de vendedores suspeitos é atrair o comprador para fora da plataforma. São anúncios idênticos, com cidades diferentes e que oferecem sempre uma negociação mais fácil pelo Whatsapp, algo que o Mercado Livre condena.

Dados do contato indicado no anúncio

Investigamos o roteiro de como funciona um golpe. Depois de se interessar por uma bicicleta, o comprador entra em contato pelo Whatsapp. De cara, um detalhe chama a atenção: a foto de perfil do vendedor parece vinda de algum banco de imagens.

A mesma foto através de uma busca no Google Imagens

Uma busca reversa rápida no Google Imagens comprova a suspeita. Mas a negociação segue, com um vendedor que tem voz própria, mas tem rosto e nome inventados. Mais uma busca reversa pelo número do celular do suspeito e chegamos a uma anúncio de contratação de pessoas para serem “vendedores no Mercado Livre”. O salário é baseado no ranking do vendedor participante do esquema na plataforma. A essa altura, todos os alarmes de que se tratava de um golpe já estavam ligados.

Oferta de trabalho convoca “vendedores” para trabalhar no Mercado Livre. O número é o mesmo do perfil com foto de banco de imagens.

Faltavam apenas algumas confirmações. Na falta de uma Trek Marin no estoque da suposta loja, fomos atrás de um modelo de estrada da Sense. Uma bicicleta com preço de venda de cerca de R$ 7.000, anunciada por R$ 2.200 e que, por fora do Mercado Livre, poderia ser comprada por R$ 1.400 com frete grátis.

Print de parte da conversa. Uma bicicleta que tem preço de venda de mais de R$ 7.000, podendo ser “vendida” por R$ 1.400 com “frete grátis”.

Para entender um pouco mais sobre o golpe, perguntamos sobre a loja. Afinal, o suposto vendedor enviou até um vídeo do modelo em um showroom. Nesse momento, a história ganha contornos quase cômicos. O vendedor manda um link para um site sem qualquer informação sobre o endereço da loja, apenas com um outro número de Whatsapp para contato. Quando perguntamos sobre o CNPJ da loja, eles alegam que trabalham como um braço da B2W (empresa dona do marketplace das Americanas) e anexam uma imagem com o CNPJ da gigante do varejo brasileiro.

Print de parte da conversa. “Vendedor” alega que o produto que vende é através da B2W.

Configurado o golpe, a única alternativa é bloquear o número de contato, documentar as evidências e enviar para as autoridades.

Plataformas de marketplace e bicicletas

A demanda por bicicletas explodiu e quem estava pronto para o comércio online, se beneficiou do bom momento, em especial em 2020. Com o novo cenário, o e-commerce continua a ser importante. Até porque, a escassez de bicicletas e componentes cria oportunidades para quem tem produto em estoque.

Uma das formas de vendas mais simples é através das plataformas de marketplace, um grande shopping online onde qualquer loja ou indivíduo pode comercializar produtos novos ou usados.

Responsáveis apenas pela hospedagem das ofertas e pela gestão da transação financeira, as grandes plataformas não exercem controle sobre o que é vendido. Nesse ambiente, acabam por se proliferar ofertas de produtos falsificados, roubados e até mesmo golpes e fraudes.

Oferta de bicicleta com quadro infantil da Trek e componentes provenientes de bicicleta pública da tembici. Anúncio de setembro de 2020, removido a pedido da tembici.

Alternativa contra fraudes e vendas de produtos roubados nos marketplaces

Depois do primeiro protótipo do que viria a ser a plataforma Semexe, Gabriel Novais e seu sócio Rafael Papa foram testar o conceito com lojistas e clientes. A percepção de quem vende bicicletas e compra era a mesma, negociação online de usadas é arriscado pelo risco de se envolver com a receptação de produtos sem origem. Sejam roubados ou provenientes de descaminho.

Focada na necessidade de ciclistas, a Semexe acabou por centrar toda sua experiência de marketplace na construção de uma alternativa segura para a transação de usadas, envolvendo pessoas físicas e jurídicas.

Fundadores e parte da equipe da Semexe, marketplace exclusivo para venda de bicicletas.

Atualmente, as garantias de procedência, muito além da nota fiscal original de compra, são intermediadas pela BikeHero. O processo de certificação envolve prova de vida e comprovação de compra da bicicleta. O padrão é que as bicicletas só sejam liberadas para a venda através de nota fiscal, com o número do quadro devidamente especificado. Uma outra camada de garantia requer que a pessoa que vende confirme que está comercializando um bem de sua propriedade.

Todo o processo de certificação é acima de tudo uma barreira contra golpes e venda de produtos sem origem lícita. Nas palavras do fundador da Semexe, o valor do negócio é a credibilidade junto a comunidade que te atende. Gabriel Novais sabe a dor de garantir a confiabilidade dos produtos negociados em sua plataforma. Muitas vendas acabam não sendo concluídas quando o vendedor precisa fornecer confirmações de dados e de procedência da bicicleta.

A burocracia na hora venda, no entanto, é uma estratégia da Semexe que tem retorno garantido no longo prazo. Focado na negociação de usados, o marketplace Enjoei está diante do grande desafio de ser uma plataforma livre de falsificações. Afinal, com as restrições da pandemia, as barraquinhas de venda de bolsas e acessórios de moda falsificados migraram parte de seus negócios para o meio virtual. Com ações na bolsa, a Enjoei precisa garantir que seu crescimento seja feito com base em transições entre empresas e pessoas idôneas.

Como as marcas buscam proteger seus clientes de golpes

A jurisprudência em caso de golpes feitos em marketplaces é totalmente favorável às plataformas. Ao consumidor resta buscar seus direitos diretamente com quem fez a venda. Por isso a importância de ter bastante atenção para saber distinguir vendedores honestos de golpistas.

Já em relação às marcas, a solução oferecida pelo Mercado Livre é Brand Protection Program (BPP), ou programa de proteção da marca. Através do programa, representantes legais podem monitorar e denunciar anúncios que comercializem suas marcas ilegalmente. Sejam falsificações, ou produtos abaixo do valor de mercado.

Representante exclusivo e oficial da Shimano no Brasil, a Blue Cycle utiliza o sistema para educar o mercado e coibir a venda de produtos provenientes de descaminho ou que estejam sonegando impostos.

Como aponta Roberto Boldrin, Gerente Nacional de Vendas da Blue Cycle, os casos variam. A ferramenta tem como objetivo focar em vendas de origem duvidosa, como produtos que entram ilegalmente no Brasil – sem nota fiscal – e até mesmo roubos. As lojas dentro do Mercado Livre são sempre notificadas e devem informar a procedência. Caso não respondam, ou não confirmem a origem legal dos produtos, a empresa detentora dos disreitos de marca pode derrubar o anúncio.

Mais conhecido pelo apelido de Alemão, Roberto conta que tem uma pessoa de sua equipe dedicada exclusivamente ao monitoramento de preços. O esforço é para garantir que seus clientes não sejam prejudicados por práticas desleais.

Os caminhos do descaminho

Diretor geral da importadora e distribuidora Proparts, Marcelo Maciel representa diversas marcas estrangeiras no Brasil. Com os avanços na tecnologia dos equipamentos, um monitoramento inédito se tornou possível. Câmbios eletrônicos Sram e dispositivos com GPS da Garmin em algum momento se conectam à internet. 

A inovação, que garante um suporte mundial e atualizações de software dos equipamentos com facilidade, permite também um monitoramento acerca da origem dos equipamentos. Pelos dados fornecidos pela matriz das marcas que representa, Marcelo consegue estimar o tamanho do mercado ilegal dos produtos que comercializa.

Ao cruzar as informações de rastreio comercial – que indica quem comprou o produto no fabricante – com as informações de local de ativação do produto – que é prestada pelo usuário quando ativa um serviço online ou uma garantia – é possível ter um indício muito forte de que o mercado informal no Brasil, comumente ilegal e criminoso, é maior que o mercado formal.

Venda de bicicletas roubadas é responsabilidade compartilhada

Infelizmente roubos e furtos de bicicletas continuarão a ser um problema. Mas muitas das soluções para atacar o problema já são possíveis de serem adotadas. Desde a responsabilidade de consumidores sobre aquilo que compram, até o controle das marcas sobre vendas online.

O poder público também tem muito a fazer. Afinal, uma justificativa comum para consumidores de produtos provenientes de descaminho é a alta carga de tributos. Ainda que esse discurso seja bastante frágil, afinal a mesma rede de negócios que traz bicicletas sem pagar impostos é a que suborna agentes alfandegários e fiscais para trazer drogas e armas.

Acima de tudo, buscar os meios de dificultar o trabalho de escoar mercadorias roubadas é a melhor garantia para que menos criminosos se aventurem no ramo das bicicletas. Afinal, se o lucro for baixo e os riscos de ter prejuízo ou ser pego forem altos, certamente os ilegais irão buscar outra atividade.

 

______________

Edit: Texto atualizado em 20/09/2021 a pedido da Blue Cycle para correção sobre o uso da ferramenta de BPP do Mercado Livre.

Envie sua mensagem