Skip to main content

Secretário de Transportes Ricardo Teixeira fala sobre bicicletas e seus planos no comando da mobilidade em São Paulo

Por 25 de setembro de 2021Bicicleta News, Notícias
COMPARTILHE:

A convite da Aliança Bike, o secretário de Mobilidade e Trânsito da Cidade de São Paulo, Ricardo Teixeira, concedeu uma entrevista exclusiva por telefone para o Bicicleta News Especial. Na pauta, a trajetória profissional, segurança viária, plano de metas, obras cicloviárias paradas, participação pública e, claro, bicicletas em São Paulo.

Trata-se de uma oportunidade para que ciclistas conheçam um pouco mais sobre o gestor responsável por incluir a bicicleta nas ruas paulistanas. Um desafio de grandes proporções e que requer capacidade técnica e uma visão política capaz de abraçar a tendência mundial em busca de cidades mais seguras, com mais pessoas em bicicleta e a pé.

Histórico do secretário municipal de mobilidade em São Paulo

 

A trajetória de Ricardo Teixeira como gestor de trânsito remonta ao ano de 1978, quando entrou para os quadros da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Sua chegada aconteceu apenas dois anos após a fundação da empresa responsável pela gestão de trânsito da maior metrópole brasileira.

Para além dos mais de 20 anos de CET, Ricardo tem uma longa trajetória como gestor de trânsito. Engenheiro pela Faculdade de Engenharia Industrial (FEI), já foi diretor do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) e da Dersa. 

Atualmente licenciado como vereador, Ricardo Teixeira tem ainda mais de 14 anos como representante eleito na Câmara Municipal de São Paulo. No executivo, foi responsável pelas secretarias das Subprefeituras e do Verde e Meio Ambiente durante a gestão Fernando Haddad. 

Desde agosto de 2021 é Secretário Municipal de Mobilidade e Trânsito na cidade de São Paulo. O convite marcou a primeira indicação pessoal do prefeito Ricardo Nunes desde que assumiu a prefeitura, após o falecimento de Bruno Covas.

O “Ricardão” da segurança viária

 

Manequim colocado em guarita para chamar a atenção de motoristas. Foto: Clóvis Ferreira/Estadão Conteúdo/Veja SP

O mais famoso agente de trânsito de São Paulo é uma ideia implementada por Ricardo Teixeira nos anos 1990.

Como gerente de operações da CET, Ricardo tinha a preocupação de reduzir os acidentes. Para vigiar motoristas, colocaram um manequim vestido como agente de trânsito dentro de uma guarita. O boneco acabou sendo apelidado de “Ricardão” em deferência ao próprio Ricardo Teixeira.

A iniciativa fez sucesso na imprensa e ajudou a coibir abusos por parte de motoristas. Com o tempo, se tornou uma inusitada atração turística e os bonecos acabaram saindo de cena.

Com orgulho, conta que ninguém foi multado pelo boneco que ajudou a criar.

Ricardo entende que trânsito é mais do que sua profissão, é assunto de boteco onde todo mundo se julga um bom técnico em mobilidade urbana. O que mais o fascina, no entanto, é a criatividade no trânsito. 

Retomada da bicicleta durante a pandemia

 

A pandemia teve um efeito pessoal benéfico para Ricardo Teixeira, trouxe a bicicleta de volta para a vida desse antigo morador de Santos. Veículo da infância, Ricardo deixou a bicicleta de lado quando se mudou para a capital aos 12 anos de idade.

Durante muitos anos, as pedaladas eram restritas às ciclovias santistas quando visitava a cidade. Após uma pneumonia grave nos primeiros meses de 2020, Ricardo precisou se trancar em casa durante a pandemia. De acordo com os médicos, o vírus poderia ser uma sentença de morte para alguém que, como ele, estava com o pulmão fragilizado.

Ao longo de 2020, Ricardo se refugiou no interior. Passou meses em Itu e Cananéia e para manter-se fisicamente ativo, reencontrou a bicicleta. Com pedaladas diárias que passavam dos 40 km, a bicicleta ajudou o então vereador a perder peso, mesmo vivendo em isolamento e com a rotina de trabalho online. 

Com a diminuição nas restrições e retomada de algumas atividades, Ricardo voltou para a capital e a bicicleta passou a ser usada para o lazer no fim de semana. Ocasiões onde o vereador licenciado passou a circular pela malha cicloviária paulistana.

Críticas às ciclofaixas em São Paulo

 

Ricardo Teixeira critica a insegurança que sente ao pedalar em ciclofaixas em grandes avenidas. Cita por exemplo o eixo viário das avenidas Rebouças e Consolação. 

Com trânsito pesado de ônibus e caminhões, motoristas que na prática não respeitam o limite de velocidade de 50 km/h, Ricardo não vê com bons olhos a separação entre ciclistas e motoristas feita apenas com tinta e tachões. Acredita mais nas ciclovias construídas em canteiros centrais, espaços de menos conflito com veículos motorizados que entram em ruas, acessam lotes ou simplesmente desembarcam passageiros.

Plano de metas para ciclovias e ciclofaixas em São Paulo

 

Como secretário, Ricardo Teixeira tem o compromisso público de ajudar a entregar ao menos 300 km de novas ciclovias e ciclofaixas na cidade. Trata-se de um dos objetivos assumidos pela gestão Bruno Covas-Ricardo Nunes, ainda durante a campanha eleitoral.

Os atrasos preocupam ciclistas, Ricardo Teixeira se defende apontando as dificuldades jurídicas causadas ao longo do projeto licitatório. Ainda assim, garante que irá cumprir a meta da gestão, e ainda investir na manutenção e reforma da infraestrutura já implantada.

Visão de futuro para as ciclovias em São Paulo

 

Ressaltando que está comprometido a entregar os projetos de ciclovias já aprovados e licitados, Ricardo Teixeira acredita ser necessária a construção de novas propostas. “Não estamos falando dos atuais 1.000 km, mas para os próximos 1.000 km”. 

Os “atuais 1.000 km” ao que o secretário se refere é o somatório dos quase 600 km de ciclovias e ciclofaixas existentes hoje em São Paulo, com os mais de 300 km que a gestão Ricardo Nunes precisa entregar. 

O secretário Ricardo Teixeira afirma que está ainda começando a promover uma conversa interna com técnicos da CET para o futuro. Na sua visão, “o que está posto, está aí”.

“A segurança de pedestres tem que ser consolidada. Ciclista tem que ser respeitado como a novidade que ainda representam no trânsito.” Na visão do secretário, motoristas em São Paulo ainda não se acostumaram com as bicicletas. 

Para Ricardo Teixeira: “É preciso levar ciclovias para vias com menos conflitos com ônibus e carros”. Longe de vias como Rebouças e Consolação, em vias paralelas com menos trânsito. Resta saber o que os técnicos da prefeitura e os ciclistas paulistanos irão achar dessa visão.

A ciclovia mais utilizada e elogiada de São Paulo

 

Ainda durante a gestão Gilberto Kassab na prefeitura de São Paulo, começou a implantação da ciclovia da Faria Lima. Já na gestão Fernando Haddad, com Ricardo Teixeira como secretário, foi feita a consulta para que as obras fossem contratadas por ata de registro de preço. Uma modalidade menos burocrática de contratação de obras públicas. Mas que pode trazer disputas judiciais. 

Ricardo Teixeira aponta que, pelo mecanismo de ata de registro, ao invés de uma licitação, foram capazes de realizar as obras com um preço menor por quilômetro do que durante a gestão Gilberto Kassab.

Mesmo assim, Ricardo Teixeira e Fernando Haddad foram alvos de diversas denúncias. Segundo aponta Teixeira, as ciclovias eram marca do governo Haddad e a imprensa resolveu bater.

De acordo com Teixeira, o Ministério Público chegou a utilizar como base, uma matéria de revista, sem ao menos conferir os números e custos diretamente com a prefeitura. Ao fim, a Controladoria Geral do Município (CGM) absolveu todos os envolvidos e o Tribunal de Contas do Município (TCM) também aprovou as contas do prefeito e do secretário.

A população agora pede ciclovias

 

Tendo vivido de perto a polêmica que as ciclovias podem gerar, até mesmo com disputas na justiça, Ricardo Teixeira hoje entende que a tendência se inverteu. Hoje, ao invés de ter que lidar com parte da população que luta contra ciclovias, a prefeitura precisa atender pedidos por mais infraestrutura para bicicletas.  

Em live com moradores de Guaianases e Itaim Paulista, o secretário ouviu pedidos insistentes para mais conectividade em uma região praticamente não servida por ciclovias. Guaianases inclusive é um dos bairros sem ciclovias e com uma das piores calçadas de São Paulo.

Moradores do Itaim querem integrar a avenida Jacu Pêssego com a cidade de Itaquaquecetuba através de uma ciclovia na avenida Marechal Tito. Trata-se da via mais mortal na capital e importante eixo de ligação na zona leste. 

Quem mora em Guaianases quer integração com a estação de trens metropolitanos da CPTM e também conexão com o eixo cicloviário da Radial Leste.

A percepção do secretário é que a pandemia mudou a disposição das pessoas em realizar deslocamentos em bicicleta mais longos. Para fugir do transporte público, novos ciclistas estão indo mais longe. Pedalando trechos de 10-15km, diariamente. Isso em uma cidade que, de acordo com dados da CET, 50% das viagens feitas em automóvel percorrem uma distância de 3-5km. Como ressalta o secretário, “é muito pouco para que toda a cidade esteja voltada para esse modal”.

Gargalos na expansão das ciclovias

 

Nas palavras do secretário Ricardo Teixeira, a ampliação e manutenção das ciclovias em São Paulo “tem recurso, tem licitação, mas tem brigas na justiça por conta das licitações. São várias coisas a fazer”.

“A expansão está sub judice”, afirma. Uma suposta briga na justiça é a justificativa para que Ricardo Teixeira não se comprometa com um cronograma preciso. Sendo assim, não está definido quantos quilômetros São Paulo terá de novas ciclovias até o final de 2021. Afinal, os 300 km do plano de metas podem ser entregues até o final de 2024 para que o compromisso público seja cumprido.

Participação pública

A Câmara Temática da Bicicleta (vinculada ao CMTT – Conselho Municipal de Trânsito e Transporte) é um mecanismo importante de participação que é muito valorizado pelos ciclistas. No início da gestão Ricardo Nunes, houve cancelamentos seguidos de reuniões e um certo desprezo da gestão por esse espaço. 

Confrontado por essa questão, Ricardo Teixeira foi enfático. Assim que entrou, agilizou a retomada das reuniões e participou da primeira reunião do CMTT. O secretário se mostra como um entusiasta da participação pública. Resta a dúvida se sua participação irá continuar e se o calendário de encontros será mantido.

Ciclismo esportivo e APCC

A criação de áreas de proteção ao ciclismo competitivo (APCC) é uma demanda recente de ciclistas paulistanos. A iniciativa, no entanto, é uma demanda urgente. Na primeira semana já como secretário, Ricardo Teixeira recebeu as pesquisas e o material sobre ciclismo de estrada e a convite da Aliança Bike e da cicloativista  Renata Falzoni, vem realizando visitas técnicas e monitoramento do uso de bicicletas por ciclistas esportivos.

Sem meias palavras, Ricardo Teixeira disse que sua secretaria e a CET foram “atropelados” pelas APCCs. Puderam comprovar in loco uma quantidade enorme de ciclistas que utilizam vias importantes da cidade para treinos, como as marginais Tietê e Pinheiros.. Uma demanda que já existe e precisa ser atendida.

A dificuldade para atender aos ciclistas esportivos, no entanto, também está posta. Estão estudando qual circuito e sinalização. O secretário está convencido de que São Paulo precisa criar uma área para esse tipo de esporte. Ele, no entanto, afirma que não tem prazo, pois ainda não tem o projeto final. Mas conclui: “tem que fazer logo, porque o uso já existe”. 

 

View this post on Instagram

 

A post shared by Aliança Bike (@aliancabike)