Seminário abre as portas das Unidades de Conservação ao Ciclismo

Gestores do ICMBio, construtores de trilhas, operadores e a Aliança Bike reuniram-se para pavimentar o futuro da bicicleta nas áreas protegidas. 

Unir na mesma conversa quem define as regras de preservação ambiental, quem projeta e constrói trilhas, quem opera o turismo de aventura e quem organiza grandes provas esportivas. Foi com essa proposta de convergência que o Seminário Uso Público com Bicicletas em Unidades de Conservação reuniu dezenas de atores do setor entre os dias 19 e 23 de outubro de 2026. O evento foi realizado na Reserva Pinho Bravo, no coração da Serra da Mantiqueira.

O encontro — organizado pela Coordenação de Estruturação e Qualificação da Visitação do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (COEST/ICMBio/MMA), com suporte da Reserva Pinho Bravo e com a parceria da NGI Mantiqueira/ICMBio e da Aliança Bike — partiu de um diagnóstico claro: o cicloturismo e o uso da bicicleta em áreas protegidas crescem em ritmo acelerado no Brasil, mas necessitam de diretrizes técnicas unificadas, governança e integração entre esferas públicas e privadas.

“Este seminário foi uma estratégia de jogar luz na importância da diversificação das atividades para a bike em Unidades de Conservação. Foi o momento de juntar todo mundo durante uma semana e entender o tamanho dessa demanda.”
Sônia Kinker, COEST/ICMBio

“Não vamos mais olhar para as Unidades de Conservação como o lugar onde você precisa desviar ou fazer a volta. Elas serão exatamente o destino que o ciclista vai buscar para pedalar.”
Fábio Faraco, Chefe da NGI Mantiqueira/ICMBio

“A gente reuniu aqui diversos atores — gestores, técnicos, especialistas e organizadores de eventos — para uma grande construção coletiva sobre políticas que incidam no fortalecimento do ciclismo dentro, no entorno e conectando as Unidades de Conservação pelo Brasil.”
Luiz Saldanha, Diretor da Aliança Bike

Diário do encontro: da teoria do solo à prática do pedal

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Dia 1: Alinhamento de atores e conceitos de engenharia de trilhas

O primeiro dia marcou a aproximação dos participantes em uma mesa de abertura diversificada, composta por representantes do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças do Clima (Camila Vasconcelos), COEST/ICMBio (Sônia Kinker), Rede Brasileira de Trilhas (Julio Meyer), Reserva Pinho Bravo (Eduardo Bracher), NGI Mantiqueira/ICMBio (Fábio Faraco) e Aliança Bike (Luiz Saldanha). Sob moderação de Cibele Munhoz (ICMBio), o grupo estabeleceu as metas de trabalho para o encontro.

Na sequência, Luiz Saldanha contextualizou o panorama nacional da bicicleta em Unidades de Conservação (UCs) com dados do Acordo de Cooperação Técnica (ACT) firmado entre a Aliança Bike e o ICMBio.

No período da tarde, a discussão aprofundou-se nas especificidades técnicas do terreno. Adriana Nascimento (Reserva Pinho Bravo), partiu do trabalho realizado na Reserva para ministrar uma aula detalhada sobre as diferenças estruturais no planejamento de caminhos para pedestres e para bicicletas:

  • Física da trilha: Ângulos de inclinação, raios de curva e preservação do fluxo (flow);
  • Manejo de impactos: Técnicas de drenagem para retenção de água e prevenção de erosão severa;
  • Gestão de riscos: Dimensionamento de pistas e estratégias para mitigação de conflitos entre diferentes usuários.

Dia 2: Avaliação in loco e a física do solo sobre duas rodas

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A equipe da Reserva Pinho Bravo apresentou as trilhas cuidadosamente construídas (Foto: Fernando Tatagiba)

Com a teoria assimilada, o segundo dia foi inteiramente dedicado à vivência em campo nas trilhas da Reserva Pinho Bravo. Pela manhã, os participantes realizaram uma caminhada técnica percorrendo sem pressa um percurso de quase 5 km para avaliar, ponto a ponto, os métodos de planejamento, contenção de solo, sinalização e manutenção.

Na parte da tarde, os participantes percorreram o mesmo trecho com bicicletas. A alternância de modos de transportes permitiu compreender na prática as decisões de engenharia — como a inclinação do terreno, a presença de pumps (ondulações de embalo) e a largura das pistas —. E como elas afetam diretamente a dirigibilidade, a velocidade e a segurança do ciclista. O dia foi concluído com um debate sobre as experiências na trilha e uma visita técnica ao Monumento Natural da Pedra do Baú.

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Os participantes caminharam no Monumento Natural (Mona) Pedra do Baú (Foto: Lucas Oliveira/Fundação Florestal)

“A gente está vivendo um marco, um divisor de águas. Começamos no passado andando em trilhas que o gado criava, sem planejamento, e agora estamos discutindo trilhas sustentáveis, democráticas e planejadas técnico-cientificamente.”
Adriana Nascimento, Reserva Pinho Bravo

Dia 3: Modelos de gestão, governança e eventos de grande porte

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Não apenas os gestores, mas vários setores do cicloturismo participaram do encontro (Foto: Aliança Bike)

A quarta-feira concentrou as discussões sobre viabilidade operacional e as parcerias. Cinco apresentações expuseram diferentes modelos de sucesso no país:

  • Flona de Brasília (DF): Gestão em áreas de alta pressão urbana (Grahal Benatti/ICMBio);
  • Flona de Lorena (SP): Envolvimento da comunidade local (Fábio Faraco/ICMBio);
  • Parque Nacional do Iguaçu (PR): Concessão e operadoras privadas de receptivo (Bruna Steckling/Let’s Go Iguassu);
  • Circuito Vale Europeu (SC): Gestão por consórcio intermunicipal (Maicon Mohr/CIMVI);
  • Caminho da Fé (SP/MG): Governança de rotas de longa distância pelo terceiro setor (Camila Bassi).

Na sequência, Luiz Saldanha complementou o painel abordando indicadores de governança e sinalização padrão.

À tarde,  Serena Reis (COEST/ICMBio) destacou o processo de modernização das diretrizes e ferramentas institucionais voltadas ao planejamento, à gestão e ao monitoramento do uso público em todas as categorias de unidades de conservação. Ressaltou, ainda, a importância dos planos de manejo, especialmente do zoneamento e das normas, e dos instrumentos de gestão relacionados à segurança, ao planejamento e ao manejo de trilhas e ao monitoramento da visitação. 

O dia ainda teve outros dois eventos: um painel moderado por Leandro Bittar (Aliança Bike),  debateu o papel dos eventos esportivos como indutores da economia local, com a participação de Fernando Cheles (L’Étape/La Vuelta), Rogério Bernardes (Copa Internacional de MTB / Copa do Mundo UCI) e Fernando Tatagiba (ICMBio) [Esse painel renderá um podcast especial na Aliança Bike]. O especialista Fábio Carminati (Rede Brasileira de Trilhas) encerrou as sessões conectando os conceitos de redes de rotas.

“Poucas pessoas se dão conta de que os parques têm, por lei, uma função social de proporcionar o contato com a natureza. É incrível ver que diversos gestores estão muito animados com a possibilidade da bicicleta como esse meio.”
Márcio Prado, Zoom Bike Park

Dia 4: Segurança viária e integração regional

O quarto dia abordou soluções para conflitos viários de cicloturistas e peregrinos. Durante a visita ao campo, na divisa da Reserva Pinho Bravo, Adriana Nascimento apresentou uma trilha alternativa para ciclistas e outra exclusiva para caminhantes, construída para desviar os peregrinos de um trecho perigoso da rodovia sem acostamento usada no Caminho da Fé.

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As famosas setas amarelas do Caminho da Fé (Foto: Aliança Bike)

No retorno ao auditório, Cláudia Camila de Oliveira (Fundação Florestal) e Márcio Prado (Zoom Bike Park), mostraram como a infraestrutura pública e os empreendimentos privados de ciclismo podem se fortalecer mutuamente em polos como Campos do Jordão e São Bento do Sapucaí. Sob condução de Cristhophe Balmant (Flona de Passa Quatro/ICMBio), iniciou-se a organização das ideias levantadas ao longo da semana.

Dia 5: Da troca de experiências aos desdobramentos futuros

O último dia de programação conectou os trabalhos realizados na Mantiqueira com as políticas nacionais de turismo e conservação. Julio Meyer e Pedro da Cunha Menezes (Rede Brasileira de Trilhas) apresentaram as oportunidades do Sistema Nacional de Trilhas e a importância de integrar os modos de bicicleta, caminhada e remo.

Com o amadurecimento dos debates promovidos ao longo dos cinco dias, os participantes reuniram-se em grupos de trabalho para responder à pergunta: “O que precisamos para consolidar e ampliar o desenvolvimento do cicloturismo em Unidades de Conservação?”.

Como resultado direto dessa construção coletiva, o grupo redigiu a Carta Pinho Bravo. O documento sintetiza as demandas do setor e atua como uma carta de princípios para que o poder público e a sociedade trabalhem na estruturação de redes e circuitos integrados.

Os Próximos Passos: O Congresso em Foz do Iguaçu

A Carta Pinho Bravo encontra-se em fase final de redação e ajustes técnicos. O documento será oficialmente apresentado e aberto para adesões institucionais e assinaturas durante o 4º Congresso Brasileiro de Trilhas, que será realizado em Foz do Iguaçu (PR), entre os dias 6 e 7 de novembro de 2026.

A expectativa é que o documento sirva como um divisor de águas na formulação de políticas públicas de ecoturismo e manejo de trilhas no Brasil, transformando o modo como o país enxerga suas áreas protegidas.

“Ela tem mais um espírito de orientação e de cobrança, sensibilizando gestores públicos de que a sociedade quer a bicicleta dentro das UCs. Não vamos mais olhar para as áreas protegidas como um lugar onde você precisa desviar; elas serão exatamente o destino que o ciclista vai buscar.”  Fábio Faraco, Chefe da NGI Mantiqueira/ICMBio

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