UCI mira o Futuro do Ciclismo com 9 pilares
Não parece iminente uma grande volta ter apenas 16 dias. Tão pouco é provável um número menor de equipes no WT. Mesmo um teto salarial não deve chegar tão cedo. Porém, essas são algumas das sugestões reunidas em um extenso material produzido pela UCI (União Ciclística Internacional) chamado Futuro do Ciclismo.
O material divulgado durante o Mundial de Montreal, no Canadá, foi formado por contribuições recebidas entre fevereiro e abril deste ano, todos envolvidos no segmento puderam opinar sobre cinco temas: calendário e participação; o modelo econômico; envolvimento dos fãs; segurança; e a integridade dos resultados.
Analisando os resultados
A UCI recebeu um total de 55 contribuições detalhadas de todo o espectro do ciclismo: federações nacionais, organizadores de provas (da Classe 2 ao UCI WorldTour ), equipes masculinas, femininas, associações e representantes de ciclistas, além de fabricantes de equipamentos, emissoras e patrocinadores comerciais.
A entidade afirma que esse conteúdo é uma orientação para os próximos passos. Entretanto, não afirma a celeridade sobre as decisões em cada tema “já que o ciclismo vive uma evolução em todos os segmentos”.
Abaixo, em um conteúdo organizado pela página País do Ciclismo, estão as principais sugestões, tratadas como “consenso” pela UCI. Na sequência, os principais pontos reunidos pelos tópicos centrais.
RESUMO DOS PRINCIPAIS PONTOS
Intenção de reduzir as etapas do Tour de France deve ter resistência da ASO, organizadora do Tour
- Um calendário mais coeso, estruturado em blocos geográficos. Menos sobreposições, uma narrativa sazonal mais clara, internacionalização mais concentrada e redução de deslocamentos. Também apareceu com frequência a proposta de reduzir a duração de algumas provas.
- Consolidação dos direitos comerciais e de mídia, com distribuição equitativa do aumento de valor. Uma oferta comercial unificada para o “circuito global”, combinada com mecanismos de solidariedade para compartilhar valor ao longo da pirâmide. Ao mesmo tempo, destacou-se a importância de preservar direitos comerciais históricos e permitir uma redistribuição de custos mais precisa.
- Um mecanismo de equilíbrio financeiro (teto orçamentário ou equivalente). Proposta referenciada por equipes, ciclistas, organizadores, federações nacionais e apoiadores comerciais, com o objetivo de reduzir a distância entre equipes e proteger o equilíbrio competitivo, preservando também o investimento de longo prazo no ciclismo e no desenvolvimento.
- Uma segunda divisão mais forte e uma pirâmide aberta protegida. Caminhos, visibilidade e incentivos mais claros para as provas UCI ProSeries e para as UCI ProTeams, preservando o acesso por mérito e mantendo as corridas menores viáveis.
- Segurança como princípio inegociável, com aplicação mais rigorosa das exigências já existentes. Padrões de percurso baseados em evidências, certificação, menos veículos no comboio, treinamento obrigatório, regras de equipamentos guiadas por dados e tecnologia de segurança baseada em GPS, aproveitando o trabalho já desenvolvido pela SafeR.
- Crescimento contínuo e cuidadosamente administrado do ciclismo feminino. O tema apareceu como uma oportunidade central tanto para a expansão do ciclismo quanto para o crescimento comercial, por meio de promoção dedicada, eventos compartilhados, um pacote comercial próprio e financiamento solidário, evitando armadilhas estruturais já vistas no masculino.
- Transmissão modernizada e maior engajamento dos fãs. Produção imersiva (câmeras embarcadas e dados ao vivo), narrativas centradas nos atletas, plataforma digital centralizada e uma estrutura competitiva mais simples e compreensível. O atrativo das provas também foi apontado como forma de reduzir a imprevisibilidade, especialmente nos eventos masculinos por etapas.
- Participação previsível, e reforma nas transferências de ciclistas e na atuação de agentes. Prazos de participação antecipados para organizadores, janelas e taxas de transferência reguladas, e regras mais claras para agentes de ciclistas.
- Arbitragem mais profissional e consistente, e sistemas de integridade confiáveis. Comissários experientes e bem treinados, regras mais simples, ferramentas de revisão de decisões e comunicação clara sobre antidoping e salvaguardas.
PROPOSTAS PARA O CALENDÁRIO
Reorganizar o calendário pode valorizar a participação das grandes estrelas, como Tadej Pogacar
- Dividir o UCI WorldTour em dois níveis: um nível superior, com Grandes Voltas, Monumentos e provas principais, com participação obrigatória das equipes de ponta; e um segundo nível mais flexível, com acesso mais fácil para as UCI ProTeams.
- Reestruturar o calendário em blocos geográficos (por exemplo, as Clássicas da Primavera, uma semana ibérica, um verão australiano e um bloco asiático no fim da temporada) para reduzir custos logísticos, evitar sobreposições e criar uma narrativa mais clara para os fãs.
- Renomear as categorias dos eventos para dar mais clareza ao público, alinhando as categorias das corridas com as categorias das equipes.
- Reduzir a quantidade de dias de prova do UCI WorldTour e o número de ciclistas por evento, para preservar a qualidade do pelotão.
- Reformar o sistema de pontos da UCI para que reflita melhor o prestígio esportivo e reequilibre a pontuação entre provas de um dia e corridas por etapas.
- Tornar obrigatória a participação dos principais ciclistas nos eventos do UCI WorldTour, especialmente fora da Europa e em mercados mais novos.
- Garantir uma presença mínima de UCI WorldTeams nos eventos da UCI ProSeries por meio de rodízio, cotas ou uma regra de número mínimo.
- Reforçar a pirâmide de desenvolvimento, por exemplo com regras de idade mínima, uma divisão profissional mais clara para as UCI Continental Teams e caminhos mais fortes para a categoria Sub-23.
- Dar maior antecedência e previsibilidade em relação a datas e equipes, com confirmações de participação mais cedo e datas do calendário definidas com pelo menos 12 meses de antecedência.
PROPOSTAS PARA A ECONOMIA
- Criar uma plataforma digital centralizada para promover o esporte de forma harmonizada e envolvente.
- Criar novos direitos comerciais a partir de patrocínio, uma plataforma digital centralizada para explorar dados e conteúdo digital, e novas receitas potenciais derivadas de formatos de eventos (ex.: bilheteria e hospitalidade).
- Introduzir um teto orçamentário, teto salarial ou teto de pontos para as equipes — a medida mais amplamente proposta — com opções de implementação gradual e variantes de ‘soft cap’ ou imposto de luxo.
- Criar um Fundo de Solidariedade do Ciclismo, administrado pela UCI, financiado por uma taxa sobre novas fontes de receita e redistribuído a organizadores mais frágeis, ao desenvolvimento de jovens e ao ciclismo de base.
- Estabelecer um fundo unificado de redistribuição de receitas, proveniente de patrocínio central, hospitalidade, licenciamento de dados e uma parcela das receitas de mídia, a ser distribuído entre equipes, organizadores, a UCI e atividades/iniciativas de desenvolvimento.
- Centralizar os direitos de mídia do UCI WorldTour por meio de um veículo comercial da UCI, potencialmente operando uma plataforma híbrida gratuita, pay-TV e digital premium.
- Estruturar o mercado de transferências de ciclistas, com janelas de transferência fixas, modelos padronizados de contrato, taxas de transferência e compensação por formação.
- Reconhecer a licença do UCI WorldTour como um ativo regulado e transferível, para que as equipes possam ser capitalizadas e atrair investimento institucional.
- Reequilibrar as obrigações financeiras entre organizadores e equipes, reavaliando as verbas de participação e estendendo a supervisão financeira aos organizadores.
- Reformar a estrutura de custos dos organizadores, com, por exemplo, equipamentos de segurança compartilhados, produção de transmissão mutualizada e custos de marketing compartilhados.
PROPOSTAS PARA A SEGURANÇA
Melhorias na segurança seguem o que já vem sendo discutido atualmente
- Enfrentar de forma sistemática os riscos do desenho dos percursos: limitar chegadas perigosas, exigir quilômetros finais retos e antecipar os prazos para entrega dos arquivos de rota das provas.
- Introduzir a homologação obrigatória e independente dos percursos, com um modelo reforçado de responsabilidade dos organizadores e avaliação de segurança dos quilômetros finais.
- Fortalecer a aplicação do SafeR: validação obrigatória de segurança antes das provas, percursos identificados com o selo SafeR e um sistema de certificação ou rotulagem vinculado ao status de licenciamento.
- Reduzir as velocidades por meio da regulamentação dos equipamentos: padrões para pneus e rodas, regras para cockpit e capacete, limites de marchas e um marco mais rigoroso para protótipos.
- Aplicar sanções de conduta mais rigorosas, como o uso mais sistemático de cartões amarelos e a revisão dos incentivos que fazem os ciclistas assumirem riscos por ganhos marginais.
- Implementar de forma obrigatória o rastreamento por GPS padronizado pela UCI para ciclistas e veículos, a fim de monitorar a caravana da prova.
- Reduzir o número de motocicletas e estruturar melhor a caravana da prova, com tecnologia de detecção de distância para os veículos.
- Introduzir educação obrigatória em segurança para os ciclistas e uma “superlicença” para jovens profissionais que ingressam no nível mais alto.
- Melhorar a segurança quando os ciclistas treinam em vias públicas, desenvolvendo recursos como um banco de dados internacional de incidentes, protocolos de reporte e articulação com autoridades nacionais de trânsito.
PROPOSTAS PARA A INTEGRIDADE
Doping mecânico é uma das preocupações por uma disputa justa
- Melhorar a consistência das decisões dos comissários: fortalecer o profissionalismo do quadro de comissários no nível do UCI WorldTour, desenvolver treinamento compartilhado e padronização, e atrair ex-ciclistas profissionais para a arbitragem.
- Introduzir um mecanismo de apoio aos comissários no estilo VAR, com base em dados do SafeR, imagens de câmeras embarcadas e na experiência de ex-ciclistas e comissários, aplicado de forma consistente em todo o ciclismo profissional de estrada.
- Modernizar as ferramentas e os investimentos em antidoping, como a ampliação do programa de passaporte biológico e o investimento em detecção de anomalias baseada em IA.
- Combater a fraude tecnológica por meio de verificações sistemáticas dos equipamentos, como o escaneamento obrigatório das bicicletas antes e depois das provas, procedimentos harmonizados em todos os eventos e coordenação com os fabricantes.
- Apertar a regulamentação dos equipamentos protótipos: declaração obrigatória de equipamentos inovadores, períodos de maturidade definidos e uma distinção mais clara entre protótipos verdadeiros e produtos de pré-série validados.
- Adotar um marco unificado de licenças para enfrentar a desigualdade nos preços das licenças nacionais.
- Estabelecer uma carta de ESG (Ambiental, Social e Governança) e integridade, com indicadores padronizados e auditados, além de uma carta social que defina padrões mínimos para a força de trabalho do ciclismo.
PROPOSTAS PARA A ENGAJAMENTO
Democratizar a transmissão e simplificar o esporte são objetivos para atrair os jovens
- Desenvolver uma plataforma digital unificada da UCI: um ecossistema sempre ativo, cobrindo todas as corridas da UCI, com feeds de dados compartilhados, conteúdo premium e de bastidores, arquivos e rastreamento ao vivo para territórios não comercializados.
- Simplificar a narrativa do calendário para públicos que não acompanham o ciclismo: blocos de temporada mais claros, maior destaque para o líder da série e uma identidade renovada para a camisa de líder e para a classificação por equipes.
- Modernizar a produção de transmissão: recursos de produção compartilhados, drones, câmeras nas bicicletas, sobreposições integradas de dados de GPS e rádio das equipes ao vivo.
- Desenvolver novos formatos de prova para engajar os fãs: corridas em circuitos urbanos, contrarrelógios com equipes mistas, eventos combinando estrada e gravel, e formatos que conectem provas profissionais a eventos de participação em massa.
- Integrar IA e tecnologias imersivas: análises, insights preditivos, melhores momentos automatizados e gráficos inspirados em videogames para públicos mais jovens, aplicados de forma seletiva e priorizando a experiência do público.
- Contratualizar a visibilidade dos patrocinadores, com padrões auditáveis para menções aos parceiros durante as transmissões e regras mais flexíveis para patrocinadores em camisas e bicicletas.
- Introduzir números permanentes para os ciclistas e uma estratégia coordenada de identidade dos atletas, voltada ao público abaixo de 35 anos.
- Criar um comitê consultivo permanente de parceiros, para dar voz consultiva aos parceiros comerciais de longo prazo.
Não fique de fora dessa discussão. Comente o que você acredita que pode, realmente, fazer o ciclismo de estrada um esporte mais promissor e saudável no futuro próximo!
