Nestor Freire embarca para nova etapa: 2.500 km pela Turquia
O cicloturista e documentarista Nestor Freire embarca nesta quinta-feira (10/9) para mais uma etapa do projeto Giraventura: uma cicloviagem de aproximadamente 2.500 km pela Turquia, prevista para ser concluída em 60 dias. Será a 14ª das 15 fases planejadas para o projeto, iniciado em 2013 e que já rendeu quatro livros, palestras e uma série de mentorias sobre viagem, escrita e propósito.
Diferente de expedições focadas em marcas e recordes, o Giraventura coloca as pessoas no centro da narrativa. “Não é sobre lugares, é sobre pessoas”, repete Freire, que usa a bicicleta como ferramenta de conexão e escuta, especialmente em contextos de idiomas e culturas distintas.
Rota pela Turquia: história, império e política
Nestor espera percorrer os cerca de 2.500 km em 60 dias (Divulgação)
A nova etapa tem como pano de fundo o coração do antigo Império Otomano. A expectativa é percorrer estradas rurais, vilarejos e cidades que foram moldadas por diferentes povos, impérios e religiões ao longo de milênios.
A pergunta que orienta parte do roteiro é: Como uma região tão disputada, atravessada por tantos povos, impérios e religiões consegue permanecer, durante milhares de anos, no centro da história?
“Minha expectativa é me conectar com as pessoas e conhecer mais sobre a origem das civilizações e o desenvolvimento do Império Otomano. Uma aula de história”, afirma Freire, que traz também uma visão atual da política nacional sobre o seu olhar. “Quero ouvir as diferenças. Perceber como elas são aceitas. Um contraponto com nosso momento tão polarizado”.
A bicicleta como conexão
Depois de 25 anos no setor corporativo, Nestor Freire decidiu transformar a paixão por pedaladas em estilo de vida e, desde então, já cruzou 27 países, sempre priorizando encontros, depoimentos e tradições locais.
A bicicleta, nesse sentido, funciona como ponte sobre as barreiras do idioma. Chegar pedalando, com bolsas de viagem e equipamento de acampamento, quebra o gelo e abre portas para conversas que dificilmente aconteceriam em outras condições.
“Eu escrevo para as pessoas refletirem. Não pra indicar o que é certo ou não é. O julgamento é do leitor”, diz. Ele gosta de citar a frase atribui ao Frei Betto: “O autor é o analisando e o leitor é o analista”. Em um momento polarizado, marcado por fake news e disputas de narrativa, Freire vê no cicloturismo uma forma de humanizar o debate, mostrar o lado bom da individualidade e do respeito às diferenças.
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Entre Selvas & Areias e o fio condutor do projeto
Nestor no Marrocos, no ano passado (Divulgação)
No ano passado, o Giraventura ganhou um capítulo especial com o projeto “Entre Selvas & Areias”, que conecta ecossistemas, culturas e memórias entre a Amazônia e o Saara. A inspiração veio da história de Mazagão, antiga colônia portuguesa no norte da África transferida para o Amapá no século XVIII, dando origem a Mazagão Velho, onde tradições que mesclam rituais religiosos, influências africanas e lusitanas seguem vivas.
Depois de pedalar a Transamazônica em 2023, Freire voltou ao Norte do Brasil para visitar Mazagão Velho. Ainda se recuperando de uma lesão na clavícula, ele percebeu que aquela conexão entre continentes seria um eixo potente para suas próximas expedições.
“É claro que o planejamento da viagem é essencial. Mas eu insisto em um descompromisso com as métricas. Se for valioso para mim, passo mais dias em um determinado lugar, estendo até outro ponto. Tudo vale a pena nessa busca que eu considero filosófica sobre a relação do ser humano com o ambiente, as fronteiras e as próprias origens”, afirma.
Quando o erro vira caminho

Uma das frases que melhor resume o estilo de Freire é: “As melhores experiências que eu tive foi quando eu errei o caminho”. Para ele, os desvios de rota, as estradas não previstas e os encontros inesperados costumam gerar as histórias mais ricas — e, no fim, as páginas mais interessantes nos livros.
Ele não vive o momento pensando no que vai escrever. Usa a memória e, quando necessário, recorre ao GPS para relembrar checkpoints e contextualizar melhor os relatos. O foco, diz, nunca foi o pedal em si: “A bicicleta me leva ao meu objetivo, que está nas relações, no povo, na cultura”.
Próximos passos do Giraventura
Com a 14ª etapa, na Turquia, Freire se aproxima do fechamento das 15 etapas previstas para o Giraventura. A ideia é terminar o ciclo no ano que vem, mas isso não significa o fim das pedaladas.
“Terminar no ano que vem as 15 etapas, que começaram em 2013, não quer dizer, entretanto, que vou parar de pedalar”, adianta. Novos projetos, rotas e livros devem surgir a partir dos encontros e das histórias coletadas nessas mais de uma década de viagem.
Como acompanhar a viagem
O dia-a-dia da cicloviagem pela Turquia, contudo, poderá ser acompanhado no site do Giraventura e nas redes sociais do projeto, com relatos, fotos e mapas das rotas percorridas.
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